“Foi o destino que me trouxe aqui”: conheça as reviravoltas na vida de Nadir, do Boi da Floresta

Nadir Cruz, do Boi da Floresta (Foto: Jeferson Stader)

Quem vê Dona Nadir costurando, bordando, cuidando dos brincantes e escrevendo projetos para garantir recursos para mais um ano do Boi de Apolônio da Floresta nem imagina que foi a brincadeira que a tirou das ruas. “Foi o destino que me trouxe para cá”, diz a presidente do grupo.

Diferentemente de outros brincantes, Dona Nadir Cruz, hoje turismóloga pós-graduada, não está na brincadeira apenas pelo gosto pela dança, música ou as promessas feitas aos santos. “Foi isso aqui que salvou a minha vida”, diz.

Com a mãe morta e o pai sofrendo de alcoolismo, ela morou um ano sozinha nas ruas. Tinha entre quatro e cinco anos. “Só sobrevivi porque uma pessoa que morava lá perto de onde hoje é a Praça Maria Aragão, e que na época passava o trem, cuidava de mim, não deixava ninguém me mexer”.

Encontrada por autoridades, Nadir foi morar num orfanato, onde aprendeu a bordar, costurar, pintar, ler e escrever. Aos 11 anos, novamente se viu sem casa. O orfanato foi fechado e 250 meninas ficaram à própria sorte.

A de Nadir era uma tia que morava na Liberdade, na rua atrás da sede do Boi da Floresta. Na tentativa de se adaptar ao novo lar – de uma mãe solteira e com nove filhos –, a menina começou a dar aulas particulares de leitura e escrita para os vizinhos. “Logo eu tinha me apoderado do bairro, conheci muita gente e queria dançar no boi”.

Ruas

Nadir Cruz, do Boi da Floresta (Foto: Jeferson Stader)

Depois de uma temporada no Boi da Floresta, Nadir se afastou, sumiu. “Foi o ano que passei nas ruas. O Mestre Apolônio e o pessoal do boi foram atrás de mim, me resgataram, eu tinha que decidir o que queria da minha vida, escolhi vir para cá”.

No retorno, as habilidades que adquiriu no orfanato foram úteis também ao grupo. “Eles viram que eu seria de grande valia para o boi, e eu também tinha um lugar para morar, comida, descanso, resolvi ficar”.

Anos depois, a entrada de Nadir como secretária do Boi causou reboliço. “Elas queriam saber de quem eu estava cuidando”, disse Nadir. “Elas” eram o que a presidente do grupo chamou de mutucas.

“Era muito comum os brincantes terem a esposa em casa e uma namorada no boi, que acompanhava as apresentações, serviam água. Elas queriam saber de quem eu estava cuidando. Eu só dizia ‘calma gente, só quero brincar meu boi sossegada’”, conta aos risos.

Família

Boi da Floresta (Foto: Jeferson Stader)

E se ela conseguiu uma vida nova e trabalho, foi também do Bumba Meu Boi que nasceu sua família. Da aproximação de Nadir com o Mestre Apolônio, veio a primeira filha dela e a 23ª dele. “Quando engravidei resolvemos acertar tudo no papel, fomos ao cartório, depois tivemos a segunda filha e daí vivemos 37 anos juntos”.

O relacionamento começou quando ela tinha 20 anos e o mestre, 60. “Sim, a idade pesou, mas depois deu tudo certo, nos acertamos; no final da vida, ele dizia que eu era a mãe dele”.

Presidente desde que o mestre faleceu, em 2015, Dona Nadir tem uma grande responsabilidade. Ela é a mãezona do grupo. Além dos 47 anos do boi, são 105 brincantes e muitas vidas para cuidar.

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