Especial Mais IDH – São João do Caru: Bacilo danado

Texto: Xavier Bartaburu

Plano Mais IDH muda a vida de moradores em São João do Caru. (Foto: Fellipe Neiva)

Segunda de manhã e Antonio de Almeida já está sentado na sala dos fundos do Centro de Saúde Dr. Benedito Carvalho. Momento importante: Antonio vai ter alta. Foi um ano e meio pelejando contra a hanseníase, desde que apareceram as primeiras manchas e a orelha esquerda começou a inchar. Notou que tinha algo estranho, foi ao médico, fez exame de sangue, deu negativo – e o doutor mandou Antonio voltar para casa. Nem o rapaz e nem o médico, pelo jeito, sabiam que o bacilo que causa a doença só aparece nos laudos quando ela já está bem avançada. A de Antonio estava no começo, e desde então só piorou.

Seis meses depois, com a orelha enorme e as manchas maiores em número e tamanho, o rapaz topou, no distante povoado de Água Azul, com Pretinho, que há algum tempo já procurava o rapaz pelos interiores depois de ser informado da suspeita de sua hanseníase. Pretinho (cujo nome de batismo é Alexandro Ferreira da Silva) é técnico de saúde do município, há quase 20 anos dedicado a encontrar e ajudar a tratar os infectados pelo bacilo-de-hansen. Trabalha todos os dias na sala ao fundo do centro de saúde, a mesma onde agora Antonio espera receber alta e a mesma na qual recebeu o diagnóstico definitivo um ano atrás do dr. Geraldo, médico da Força Estadual de Saúde. Estava com umas 15 manchas no corpo, a orelha direita começando a desfigurar também e a sensibilidade dos pés e das mãos visivelmente comprometida.

O Brasil é o segundo país com maior incidência de hanseníase no mundo – doença antiquíssima, amaldiçoada desde tempos bíblicos, que viceja particularmente nos Trópicos, sob condições precárias de vida. O Maranhão é o líder no Nordeste: cerca de 3 mil casos notificados em 2017, mais de 10% do total nacional. São João do Caru, município situado nas franjas da Floresta Amazônica, quase encostado no Pará, tem 23 pacientes sendo acompanhados no momento, só na sede. Parece pouco, mas é dez vezes mais que a média brasileira de casos por habitantes.

– Em uma única rua de um povoado, praticamente todas as casas tinham alguém infectado – diz a enfermeira Elys Regina Martins.

Em breve será um paciente a menos na estatística, pois Antonio deve receber alta ainda esta segunda, assim que a dra. Laís, a nova médica da Força Estadual de Saúde, chegar para seu primeiro dia no emprego novo, integrando a equipe que já fez mais de 21 mil atendimentos na cidade em pouco mais de dois anos. Enquanto isso, o rapaz de 32 anos aguarda na sala mais arejada do posto, dotada de duas grandes janelas permanentemente abertas e dois ventiladores permanentemente ligados. Hanseníase é doença que se transmite pelo ar, por meio de fala, tosse ou respiro – quanto mais ventilado o ambiente, menor o risco. E pelo jeito funciona, pois Pretinho, depois de quase duas décadas em contato com infectados, poderia muito bem ter virado paciente ele também.

– Graças a Deus nunca peguei! – celebra o agente de saúde.

Plano Mais IDH muda a vida de moradores em São João do Caru. (Foto: Fellipe Neiva)

Pretinho divide seu tempo entre a busca ativa pelos povoados atrás de supostos infectados e as horas no centro de saúde, acompanhando os pacientes, administrando as doses do medicamento e, na falta de médico ou enfermeira, recebendo as pessoas e identificando os primeiros sinais da doença. O mais comum são as manchas avermelhadas que surgem pelo corpo. E mais comum ainda é que os infectados, sobretudo nestes interiores do Maranhão, deixem as manchas se alastrarem antes de pedir ajuda. Quando chegam ao posto de saúde ou são encontrados por Pretinho, já estão na fase mais agressiva, a multibacilar, muitas vezes incapazes de sentir dor, frio ou calor, caminhando para uma possível perda da visão ou a atrofia das mãos e dos pés. Antonio, quando começou o tratamento, estava já nessa fase.

– Noventa por cento dos pacientes que temos é multibacilar – informa Pretinho.

Daí a importância das novas companheiras de sala que o agente ganhou um ano e meio atrás, a enfermeira Elys Regina e a nutricionista Nataniele Viana, ambas da Força Estadual de Saúde, que ao menos uma vez por semana passam o dia sob os dois ventiladores atendendo os pacientes. Vale lembrar que a hanseníase tem cura, mesmo nos estágios mais avançados: o tratamento dura de seis a 12 meses e é feito à base de comprimidos diários de manutenção e ainda uma dose mensal de cinco comprimidos, que devem ser tomados sempre na frente de um profissional de saúde. É a chamada dose supervisionada, feita para garantir que o doente siga o tratamento à risca.

Antes da chegada da Força, Pretinho costumava trabalhar com outro agente de saúde, e mesmo assim era impossível acompanhar todos os pacientes, tamanha a demanda. Agora, a cada três meses, as moças da Fesma montam plantão no centro de saúde para fazer a avaliação de todos os que estiverem em tratamento. O equipamento é simples, mas tremendamente eficaz na hora de determinar se a pessoa está com a sensibilidade comprometida: bastam uma caneta, um fio dental, um chumaço de algodão, alguns pregos e uma lamparina e com isso já é possível detectar se o paciente tem ou não, por exemplo, sensibilidade ao calor, a objetos pontiagudos e às cócegas.

Nesta manhã de segunda, enquanto aguarda a alta, Antonio está exatamente se submetendo a todos esses procedimentos. Mal vê a hora de se ver livre da doença. Faz um ano que está sem trabalhar, morando com os pais, que impediram o rapaz de ir para a roça enquanto estivesse sendo tratado. Agora curado, passados nove dias do último comprimido, Antonio está pensando em ficar por aqui, na cidade: arranjar emprego novo, cuidar da saúde.

É assim, de paciente em paciente, que a hanseníase aos poucos vai sendo debelada. No começo do século 21, o número de casos no Maranhão era cinco vezes maior do que hoje. Ainda é alto, mas a queda de incidência nos últimos anos aponta para um bom prognóstico. A cura já existe – é só questão de encontrar as pessoas infectadas e tratá-las. O Maranhão nunca esteve tão perto disso.

Saiba mais:

São João do Caru

Ações do Mais IDH: Sim, Eu Posso!; Bolsa Escola; Arca das Letras; Formação Inicial e Continuada/Iema; Centros de Referência em Assistência Social; Força Estadual de Saúde; Mais Sementes; Mais Feiras; Sistecs; Regularização Fundiária; Programa de Aquisição de Alimentos; Programa Nacional de Alimentação Escolar; Primeira Água; Água Para Todos; Saneamento Básico Rural; Mais Saneamento; Kits de Irrigação; Mais Asfalto; Minha Casa, Meu Maranhão; Cozinha Comunitária.

IDHM: 0,509
Ano de fundação: 1997
População: 12.309 habitantes
População rural: 48,6% do total
Renda per capita: R$ 165,38
População abaixo da linha de pobreza: 56,6%
Taxa de analfabetismo (acima de 25 anos): 45,5%
Mortalidade infantil: 43,7 entre mil nascidos vivos

Plano Mais IDH muda a vida de moradores em São João do Caru. (Foto: Fellipe Neiva)

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