
Uma situação confusa tornava-se enfim normalizada. O governo da Bahia estabeleceu regras bem claras. A cidade de São Luís conservou seu nome francês - caso excepcional - enquanto que a fortaleza tomava o nome de São Filipe. Pertencia, então, Portugal ao rei Filipe III da Espanha. O engenheiro militar Francisco Frias de Mesquita demarcou no território o traçado de uma autêntica cidade com quadriculado exato "à espanhola", apesar do relevo difícil. Em 1621, era criado o Estado do Maranhão, independente do resto do Brasil. O objetivo não expresso era facilitar uma passagem entre o litoral e a expansão castelhana no Peru - que acreditavam próximo - através da Amazônia: uma entrada direta para o Atlântico.
A Ilha do Maranhão (latitude 2º 31' S.) foi, portanto, o lugar por onde a civilização urbana penetrou, estabeleceu-se e criou raízes: a verdadeira "porta de entrada" dos 5.000 km aproximadamente da costa atlântica da América do Sul de um lado a outro do Equador, entre as longitudes 50N e 50S.
A nova cidade de São Luís surgiu, assim, como a primeira fundação européia na tórrida zona equatorial, na entrada da floresta pré-amazônica: um meio longínquo e hostil. Surgiram problemas totalmente novos, que eram um verdadeiro desafio à capacidade do homem branco para se adaptar a climas e ambientes desconhecidos. Urgia criar uma "cidade equatorial" de um novo tipo, capacitada a prover suas necessidades e a definir uma função urbana que garantisse sua viabilidade, sua continuidade e seu crescimento. Enfim vencer onde João de Barros e La Ravardière tinham fracassado.
A partir de 1620, casais de colonos chegavam dos Açores e tentava-se aclimatar culturas de exportação (açúcar e algodão). Uma campanha de imprensa foi lançada para atrair investimentos e imigrantes, com a publicação do livro RELAÇÃO SUMÁRIA DAS COISAS DO MARANHÃO, Dirigida aos Pobres deste Reino (Lisboa, 1624), escrito pelo capitão Simão Estácio da Silveira, chegado cinco anos antes dos Açores.
A cidade se desenvolvia. Voltava a ser um objetivo estratégico para as potências européias. Os holandeses de Maurício de Nassau, já solidamente instalados em Recife, conquistaram São Luís em 1641, mas logo foram expulsos em 1644.
São Luís é, desse modo, a única capital brasileira que foi francesa, holandesa e portuguesa, conservando vestígios de todos esses povos, aos quais é preciso acrescentar o substrato das populações nativas - os Tupinambás e suas variantes mestiças, como os mamelucos e os caboclos. A partir do século XVII, chegavam massas de escravos africanos, vindos principalmente das costas da Mina e de Angola.
Depois do Rio de Janeiro e de Salvador na Bahia, São Luís é o terceiro centro mais denso de povoamento de origem negra no Brasil. A "Cafua das Mercês" (hoje Museu do Negro), lugar em que os escravos eram colocados após seu desembarque e a notável "Casa de Mina", onde eles apresentavam seus cultos e práticas ancestrais (muito bem estudadas por Manuel Nunes Pereira) são testemunhas desta contribuição importante.

Do mesmo modo, as manifestações folclóricas, verdadeiras instituições, como o "Tambor de Mina", o "Tambor de Crioula", as Festas do Divino, o "Bumba-Meu-Boi, além das edificações arquitetônicas. como as igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e São José do Desterro - a mais antiga da cidade - , construídas por antigos escravos, são indícios da vitalidade e da força sincretista dessas tradições sempre vivas.
Foram, sem dúvida, esta capacidade de adaptação, bem visível nas ruas, o caráter da população, as danças, a cozinha muito original, o Carnaval, as rezas e as "mandingas" (superstições), que permitiram a sobrevivência de toda uma comunidade em um meio tão adverso.
VEJA MAISSão Luís-Valores PatrimoniaisUm patrimônio monumental único em seu gêneroSão Luís-Atenas BrasileiraPrimeira cidade do País a receber uma companhia italiana de óperaSão Luís-Capital MarítimaComo foi o desenvolvimento da Capital MarítimaAzuleijosConheça alguns azuleijos deste acervoBreve HistóriaComo tudo começou em São Luís